Balneabilidade da cultura - A Tribuna

 

Santos é uma cidade que possui um inestimável patrimônio cultural. Berço dos irmãos Andradas, principal porto escoador da rica produção cafeeira do início do século passado, porta de entrada de milhares de imigrantes que forjaram com o seu trabalho e suas diferentes culturas o mosaico que se tornou o nosso povo. Cidade de inúmeras figuras importantes no panorama político, cultural e artístico de nosso país. Cidade com um tecido urbano dos mais peculiares do Brasil, graças ao plano de Saturnino de Brito que brilhantemente cortou a cidade com canais que até hoje formam a principal referência para os que aqui vivem.

Curiosamente e apesar de tudo isso, cada dia mais ouvimos que a principal vocação turística de Santos é a balneária. Temos praias, porém dizer que são lindas é um pouco de ufanismo. As belezas naturais, juntamente com o patrimônio cultural construído ou não, é que tornam Santos uma cidade tão atraente. Esse patrimônio é constituído não somente por imóveis, tombados ou não, mas também por manifestações culturais como festivais de música, de cinema, teatro, mostras de arte, etc.

O verdadeiro e inestimável patrimônio de um povo é a sua cultura. Por pior que sejam as conjunções econômicas ou políticas de um país, a cultura é um patrimônio inalienável. Pois bem, pensando assim, pergunto:
Quanto custou para a cidade a demolição do Parque Balneário? O que representa para os santistas ver o Teatro Guarani em ruínas? Quanto nos custaria passear pela orla da praia e não ver o casarão branco, hoje transformado em Pinacoteca Benedito Calixto? Quanto custaria a cobertura dos canais?

Sem dúvida, este custo seria incalculável, porque ao contrário do que muitas pessoas pensam, cultura não se contabiliza em moeda corrente, mas sim em cabeças pensantes, em cidadania.
Precisamos pensar em qual o legado que queremos deixar para as futuras gerações, edifícios de valor artístico e cultural, formação intelectual consistente ou a banalidade e efemeridade de um shopping center ou coisa que o valha.

Talvez as pessoas que se preocupam com os bens culturais da cidade, não sejam sonhadoras. Talvez elas só tenham outra escala de valores.
É provável que se seguirmos os exemplos de vários países que sabem explorar - no bom sentido - os seus bens culturais, possamos gerar muito mais receita do que somente com o turismo balneário ou de negócios.

Todas as iniciativas para alavancar a economia da região, são importantes, e nesse contexto se colocam os esforços da administração municipal com a recuperação do centro histórico e a recuperação de logradouros e da orla da praia.
A questão que se coloca é a de que essas iniciativas não parem aí. Não podemos apenas recuperar o Coliseu ou o Guarani - embora isso não é pouco - mas devemos principalmente usar sabiamente esses espaços.

A recuperação do centro histórico não pode apenas servir para a criação de corredores gastronômicos, afinal alguns iluminados já quiseram até cobrir as ruas do centro, talvez imaginando que impedir que chova no chopp de alguém é mais importante que manter as características de tão importante acervo arquitetônico.

Enfim o que é urgente e necessário é que se estabeleça um plano diretor que contemple não apenas o uso desse patrimônio mas também que se crie alternativas para todos os agentes culturais que podem tornar Santos uma cidade muito mais interessante do que um simpático balneário para senhores aposentados.

A recuperação do patrimônio e o seu uso adequado deve servir principalmente para ensinar que sem passado não pode haver futuro. O preço que a história cobra dos que viram as costas para a cultura é a ignorância, este sim o pior dos prejuízos que um povo pode ter.


Jornal A Tribuna - Santos

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